A Santidade é Graça

A santificação é um processo que se dá na história humana e passa pela nossa liberdade. Podemos orientar nossas atitudes para uma abertura ou para um fechamento, para o dom de Deus na dinâmica do Espírito Santo ou para um egocentrismo. E como esse processo só se esgota no fim de nossa existência terrena, ele nos é apresentado como uma realidade escatológica.

A santidade se constrói no interior da comunidade de batizados, que nos foi apresentada pela dinâmica do Espirito Santo em Pentecostes e onde mais esse mesmo Espírito desejar soprar, pois ele sopra onde quer, em qualquer lugar e em qualquer pessoa (cf. Jo 3,8). É esse Espírito que nos faz um e santos em Cristo. A comunidade santa é uma comunidade de amor, uma realidade escatológica que é visibilizada pelo testemunho da dinâmica comunitária e sacramental da igreja povo de Deus. A construção dessa santidade é reconstrução, ressignificação da vocação humana marcada pelo “pecado” (cf. Jo 17,11), que agora se encontra novamente reorientada para Deus.

A santidade se apresenta em tudo que foi criado em Cristo (cf. Cl 1,15-20), ainda que esta se apresente eclipsada pelo “pecado” presente no mundo. Quando digo pecado, estou me referindo a uma fragilidade humana que todos temos, pois somos vasos de barro e nossa liberdade é uma liberdade limitada pelo contexto em que estamos inseridos. Então, para buscar a santidade o que devemos fazer é nos orientar pela lógica do amor de Cristo e não pela lógica das sociedades. Como possuímos uma fragilidade inerente a nossa condição de criatura, nem sempre o conseguimos, por isso em Cristo somos pecadores remidos (cf. Rm 3,23-24). Mas como o projeto de salvação de Jesus Cristo também é universal, logo, ofertado para todos e todas, sem nenhuma exceção, todos somos santos e pecadores: justos e injustos, bons e maus, crentes e não crentes (cf. Mt 5,45).

No horizonte escatológico estará sempre a esperança de que renovadas pelo Espírito Santo, todas as coisas se façam novas de novo e toda a humanidade se apresente novamente em conformidade com Cristo-fôrma (em cristoformidade, cf. Rm 5,1-9).

Mas e a perfeição? Se sou perfeito não preciso de Deus para me salvar. A minha salvação já está garantida através das minhas obras, das minhas orações, dos sacramentos que recebi, das inúmeras missas que participei. O problema é que nesse caso, a graça da graça de Deus passou longe de mim, pois não precisei dela para garantir a minha salvação. Eu cumpri a lei, as normas religiosas e por isso já estou salvo, sentado a “esquerda” de Deus Pai. A parábola do Fariseu em Lc 18,9-14 nos revela com clareza isso, aquele que sabe que é pecador (o publicano ou cobrador de impostos) e que pelas próprias pernas sabe que não chegará a salvação, conta com a graça de Deus. O outro (o fariseu) não precisa da graça de Deus, pois já sabe e já fez tudo que seria necessário para a sua salvação, não precisa de Deus.

A perfeição só pode ser entendida como santificação humana e ela é escatológica. Só será plena na outra vida, mas deve guiar na atualidade da minha história, os meus gestos e ações, a minha atitude mais fundamental. Essa orientação fundamental também já é resultado da ação da graça de Deus em mim. A minha perfeição é imagem, ou melhor, imagem da imagem da perfeição do humano que é Jesus Cristo. Assim sendo, nossa perfeição deve ser compreendida como busca pela santidade (cf. Lv 19,2; Mt 5,48), por irmos nos conformando a Cristo.

Ser perfeito é ser feliz vivendo na alteridade, voltado para o outro, descentrado de si mesmo. E isso só é possível naquele que vive para e na misericórdia e não julga o seu próximo (cf. Lc 6,36-38). Vivendo na misericórdia para com o próximo e para consigo mesmo estamos direcionando nossos gestos e ações para busca da nossa santificação e da nossa felicidade. Estamos nos orientando para a humanização e para o reino de Amor, o reino de Deus, ainda que eu intitule esse reino de maneira diferente.

* Alexandre M. Rangel é Teólogo, Analista de Sistemas, especialista em Redes e estudante do domínio adicional Tecnologias e Mídias Digitais da PUC-Rio.

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