A Liturgia: celebração da fé ou norma em forma de rito?

Quando vamos refletir sobre algo que já está tão fortemente enrijecido e que, por isso, já se transformou num hábito pelo hábito, gosto sempre de buscar orientação numa palavra paulina que se encontra no Segundo Testamento: ‘É para liberdade que Cristo nos libertou’ (cf. Gl 5,1). Ou seja, foi para liberdade que Cristo nos libertou e não para voltarmos a viver sob o julgo da lei, da lei pela lei, como estavam fazendo alguns recém-convertidos, que não conseguiam deixar de se circuncidar. A Lei (torah) é e deve ser importante não só para judeus, como para cristãos também, mas nunca deve estar acima da felicidade da pessoa e da vida humana. ‘Atentar contra a felicidade de viver (e todas as consequências que isso implica) é a mais grave agressão que se pode cometer contra o ser humano’[1].

Paulo alerta que aquele que segue a norma, o rito pelo rito ou qualquer outra regra uniforme em busca da salvação, se basta a si mesmo para ser salvo e, por isso, está fora da graça (cf. Gl 5,4). E se não acolhe a gratuidade da graça, que é e deve ser a única possibilidade real de salvação[2] (Rm 3,21-31), também pode estar fora desta.

Toda a pregação de Jesus foi voltada para se fazer presente o reino de Deus e tudo que era contrário a mensagem desse reino era criticado ou relativizado por Jesus. Por isso, ele criticou duramente as normas e regras religiosas de seu tempo, bem como alguns setores da sua religião. Se as normas religiosas estavam sendo utilizadas para desumanizar as pessoas, elas deveriam ser relidas ou abolidas, pois não há espaço para elas num reino de amor, num reino onde o que importa é a felicidade do outro.

‘Jesus foi um transgressor da Lei religiosa (…). Ele deixou de observar a Lei exclusivamente quando estavam em jogo a saúde, a integridade da vida, a dignidade e a felicidade das pessoas’[3]. Por causa dessa ‘transgressão’ com relação à nomos, ele foi acusado de beberrão e comilão (cf. Mt 11,19); e de blasfemador, pois curava no sábado (cf. Lc 14,4) e comia com pecadores.

Jesus sorrindo, pe. Ignácio, Montes Claros/MG.

A liturgia dos três primeiros séculos era a representação cultual e festiva da fé que foi vivida no dia a dia da comunidade (ecclesia ou Igreja). Assim como, as músicas litúrgicas/festivas que utilizamos hoje deveriam ser capazes de conectar a Palavra com a fé que foi experimentada pela comunidade. As primeiras comunidades cristãs certamente não tinham a mão cantos gregorianos, nem mesmo ‘louvemos’ ou ‘cantai ao senhor’. Suas músicas eram aquelas que falavam justamente da experiência de fé vivida (Salmos). Mesmo assim, não é difícil encontrar Salmos que retratam experiências comunitárias ou momentos de fé bem distintos, por vezes antagônicos, como é o caso dos Salmos 22 e 23.

Ainda hoje, infelizmente não na Igreja Ocidental onde a liturgia foi romanizada e uniformizada (movimento consolidado com a cristandade), é possível observar essa rica experiência de fé nas 22 (vinte e duas) Igreja Católicas do Oriente, cada qual com seu rito próprio. A celebração de cada uma dessas comunidades fala de uma realidade de fé distinta e verdadeira, logo, não poderiam jamais ter um rito uniformizado. E a Igreja Ocidental, ao normatizar um rito único para toda Igreja particular, corre o sério risco de deixar de fora um importante participante, o pneuma, o Espírito Santo. Pois ele não se deixa formatar nem aprisionar, ele sopra onde quer (cf. Jo 3,8).

O que a Igreja e Cristo desejam e anseiam – e aqui não pode haver conflito – é a unidade e não a uniformidade (cf. Ef 4,13-16). Nesse caso, ser ortodoxo é permitir a multiplicidade e a diversidade litúrgica próprias de um Espírito que não se deixa aprisionar nem formatar e que, por isso age de maneira diferente em cada pessoa, em cada Igreja particular. O Espírito Santo é liberdade que dialoga com outras liberdades, não está aprisionado num rito nem em outro, mas age em todos ao mesmo tempo.

É por isso que a Sacrosanctum Concilium, constituição dogmática do Concílio Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia, afirma em relação às músicas litúrgicas que: ‘Em certas regiões, sobretudo nas Missões, há povos com tradição musical própria, a qual tem excepcional importância na sua vida religiosa e social. Estime-se como se deve e dê-se-lhe o lugar que lhe compete, tanto na educação do sentido religioso desses povos como na adaptação do culto à sua índole, segundo os art. 39 e 40. Por isso, procure-se cuidadosamente que, na sua formação musical, os missionários fiquem aptos, na medida do possível, a promover a música tradicional desses povos nas escolas e nas ações sagradas’ (SC 119). Ou seja, não só é possível fazer ‘adaptações’, mas é nossa obrigação fazê-las. Assim não corremos o risco de banir o Espírito Santo das missas nem de afastar a celebração da prática da fé diária, transformando-a num rito pelo rito, numa nomos vazia de espiritualidade e rica em dogmatismos.

Por vezes nos acomodamos tão facilmente sob o julgo da norma, que nem percebemos algumas heresias que a fé contemporânea pode sem grandes esforços teológicos identificar. Como por exemplo: a liturgia mais importante da Igreja (sábado de páscoa) e muitas músicas ‘litúrgicas’ dizem com certa frequência que um Deus que é amor e misericórdia envia seu Filho para morrer na cruz. Logo, um pouco de censo crítico também me parece fazer parte do leque de ações do Espírito Santo. E isto parece ter sido observado sabiamente pelo Catecismo da Igreja Católica, mais precisamente no número 1831, quando diz que o dom da ciência e o dom da inteligência, também são dons do Espírito.

Falamos de liturgia quase como se esse fosse um conceito matemático: claro e não contraditório, mas a palavra liturgia, na Bíblia, tem significados diferentes. O termo leitourgía está diretamente vinculado, na sua origem: a) ao verbo leitourgeîn; b) ao substantivo de coisa leitourgía; c) de pessoa leitourgós. Estas três as formas do termo liturgia aparecem num total de 15 (quinze) vezes no Segundo Testamento e possuem quatro sentidos: a) profano – uso do termo no mundo do trabalho, dos negócios, ou seja, no mundo social (cf. Rm 13,6; Fl 2,25; 2Cor 1,12); b) ritual / sacrificial – próprio do Primeiro Testamento, onde Jesus Cristo é o leitourgós (Hb 8,2; Lc 1,23; Hb 9,21; Hb 10,11.21); c) cultual / espiritual – a vida do cristão é um culto a Deus (cf. Rm 15-16; Rm 12,1); d) ato litúrgico / rito cristão / celebração – termo liturgizando, que aparece somente uma vez, mas é o que damos mais importância.

Assim sendo, fica muito difícil dizer com tanta precisão o que é e o que não é litúrgico. Acredito que isso deva ficar reservado à ação do Espírito Santo no coração de cada comunidade. Talvez seja possível dizer que o termo liturgia signifique algo como: em favor do povo e/ou pelo povo.

Com a encarnação do Verbo divino tudo foi divinizado, não existe mais separação entre profano e sagrado, tudo é consagrado em Cristo, pois ‘ele é o primogênito de TODA a criação’ (cf. Cl 1,15). Por isso arrisco dizer que não pode existir algo que foi criado que não seja sagrado. O problema está não nesse ‘algo’, mas no uso que eu faço desse algo. E com a liturgia isso não deve ser muito diferente.

Outro dado importante, é que foi somente no século XVIII que o termo liturgia começa a ser utilizado pela Igreja. E somente no século XX, na encíclica do Papa Pio XII (Metiator Dei), é que o termo é utilizado num documento oficial da Igreja. Ou seja, a ‘liturgia’ das primeiras comunidades cristãs era na verdade a celebração da fé vivida no dia a dia, e por isso, recheada de músicas populares e de muita alegria pela ação de Deus em suas vidas. Não era o que entendemos hoje como liturgia.

Mesmo a Instrução Geral para o Missão Romano (IGMR) só nos fala de missa rezada e missa cantada, nem se quer detalha quais músicas são ‘litúrgicas’ ou não. Os cantos que a IGMR (n. 24) aborda são os Salmos, as falas de quem preside e as respostas da assembleia.

E, por fim, devemos nos lembrar de que Jesus não sabia liturgia cristã, pois era judeu praticante e leigo. Ele não sabia teologia, pois não estudou a torah com nenhum rabino. Ele era alguém livre, totalmente voltado para o Pai, totalmente envolvido pelo Espírito Santo.

A liturgia e mesmo a teologia são frutos da ação de Deus em simbiose com uma ação humana contextualizada, localizada numa época e cultura específicas. Por isso não são verdades imutáveis, mas elementos sujeitos à ação do Espírito Santo.

[1] Castillo, José Maria. Deus e Nossa Felicidade, São Paulo: Loyola, 2006, p. 12.

[2] Em Paulo, salvação é a mesma coisa que justificação. Justiça de Deus e não dos homens nem das mulheres, pois o que é justiça para Deus, muitas vezes é injustiça na lógica das sociedades (cf. Mt 20,1-16).

[3] Castillo. Deus e Nossa Felicidade, p. 55.

* Alexandre M. Rangel é Teólogo, Analista de Sistemas, especialista em Redes e estudante do domínio adicional Tecnologias e Mídias Digitais da PUC-Rio.

2 comments to A Liturgia: celebração da fé ou norma em forma de rito?

  • Alexandre, paz!
    Parabéns pelo seu texto!
    A clareza e profundidade nos encoraja a encarnar uma liturgia pós-conciliar, mesmo com tantos vendavais de ventos contrários. Amo a liturgia, sempre participo das semanas nacionais em sp para respirar um pouco e beber de uma fonte viva, mas percebo um perigoso retrocesso tridentino. Porém a fé naquele que é o motivo de nossa alegria nos leva a navegar mesmo contra a correnteza. Obrigado pela partilha de suas ideias e ideais.
    Sou padre há 19 anos no interior de sp.
    Grande abraço no Senhor!
    pe. Carlos, pirassununga -sp

    • arangel

      Pe. Carlos, obrigado por seu comentário. Fico feliz que tenha gostado da minha partilha, por vezes bem crítica eu sei, mas que é resultado do meu “amor esclarecido” pela Igreja, como diria o eclesiólogo pe. Antonio Almeida.
      Em Cristo!

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