Software Livre e Cibercultura

Quando abordamos o uso de programas livres, outros insumos devem ser pensados e observados com muita atenção. A primeira vista podemos ter o software livre como um produto amador, sem o suporte de uma empresa sólida, sem uma estrutura organizacional robusta que garanta sua qualidade, enfim alguma coisa sem referência e/ou potencialidade. Porém, isso não passa de uma visão superficial e/ou pautada por uma lógica mercadológica e epistemológica que não mais corresponde aos anseios e movimentos da pós-modernidade.

Há de fato uma nova economia do conhecimento na cibercultura[1], não buscamos nem construímos mais as bases dos diferentes saberes por uma via única, estática e estruturada sob um único suporte (domínio da escrita, livro, professor, especialista, etc). Esse não é mais o único, nem o melhor caminho para o conhecimento, pois ele agora é fomentado por infinitas vias de mão dupla, colaborativas, interativas e dinâmicas.

Vivemos numa época de mutabilidade humana interior constante, impulsionada não mais por suportes geográficos de poder (econômico, político, intelectual, religioso), mas pela própria capacidade de interagir, comunicar-se, receber e compartilhar conhecimento e informação. Por isso, o que chamamos de inteligência coletiva é algo essencialmente comunicativo, colaborativo e abrange a pessoa como um todo, de maneira integral. Abrange o seu saber-viver (savoir-vivre), sua experiência de vida, independente de diploma e/ou título, porque não possui fronteiras, limites ou molduras. (Lévy, 2003, pp. 28-32).

Então, a lógica utilizada para se avaliar um software na pós-modernidade não pode ser a mesma que era utilizada na modernidade. Como exemplo podemos citar o Software R, um programa livre que em muitas de suas funcionalidades e características supera seus concorrentes, mesmo sendo programas proprietários como é o caso do SPSS[2].

O sucesso do Projeto R está justamente na lógica com a qual foi pensado, criado e desenvolvido. É um projeto fundado e enraizado numa sociedade em constante metamorfose, ampliação, transgressão, colaboração e complementação, ou seja, uma sociedade ciberculturada. Segundo Pierre Lévy, “A cibercultura é a expressão da aspiração de construção de um laço social, que não seria fundado nem sobre links territoriais, nem sobre relações institucionais, nem sobre as relações de poder, mas sobre a reunião em torno de centros de interesses comuns, sobre o jogo, sobre o compartilhamento do saber, sobre a aprendizagem cooperativa, sobre processos abertos de colaboração.” (Lévy, 2000, pág. 130).

Os usuários/as dessa nova cultura deixaram de ser meros receptores e tornaram-se produtores de conteúdo, software e saberes. Eles possuem múltiplas identidades coletivas que não se encaixam mais na lógica de vários programas proprietários, que não possibilitam o desenvolvimento colaborativo nem oferecem a liberdade criativa que os usuários pós-modernos buscam.

O software livre é a realização, o produto de uma sociedade ciberculturada que quebra paradigmas constantemente. Há pouco tempo falávamos da convergência de todas as mídias em uma única (internet), hoje falamos de ubiqüidade (Pimentel et al, 2011)[3] da simbiose entre mídias existentes e novas. Cada vez mais diferentes aparelhos (gadgets) eletrônicos executam as mesmas tarefas e/ou estão interconectados e sincronizados.

Nesse novo cenário, o espaço para programas “fechados” que não conversem com várias plataformas e não permitam a participação criativa do usuário-desenvolvedor será cada vez menor.

 

[1] A cibercultura é uma cultura que inaugura uma nova forma de experimentar o saber, uma nova maneira de se relacionar e uma nova maneira de se comunicar.

[2] http://www-01.ibm.com/software/analytics/spss/ – última visita em 21/10/2012.

[3] p. 303: Mark Weiser cunhou o termo “Computação Ubíqua” em 1988 quando trabalhava como diretor do Computer Science Laboratory (CSL), na Xerox PARC. Seu artigo “The Computer for the 21st Century”, publicado em 1991 na revista Scientific American (Weiser, 1991), tornou-se um documento visionário que até hoje é a principal referência de pesquisas e desenvolvimentos em Computação Ubíqua. Para Weiser, a Computação Ubíqua é a terceira era da Computação: após a era dos computadores de grande porte (vários usuários compartilham um computador) e a era dos computadores pessoais (cada usuário usa seu próprio computador), a era da Computação Ubíqua é a dos dispositivos de tamanho reduzido (cada usuário usa vários dispositivos). Weiser também observou que a Computação Ubíqua se opões a Realidade Virtual. Na Realidade Virtual, imergimos por meio de avatares num ambiente criado pelo computador, na Computação Ubíqua, são os dispositivos computacionais que vêm habitar o nosso mundo real. Paralelamente à Xerox, em meados da década de 1990 a IBM trabalhava com um conceito similar denominado Computação Pervasiva. A palavra “pervasiva” ressalta a ideia da penetração e difusão dos computadores nos objetos do ambiente em que vivemos, enquanto “ubíquo” ressalta a presença destes equipamentos em todos os lugares. Atualmente, Computação Ubíqua e Computação Pervasiva são usadas como sinônimos.

A Santidade é Graça

A santificação é um processo que se dá na história humana e passa pela nossa liberdade. Podemos orientar nossas atitudes para uma abertura ou para um fechamento, para o dom de Deus na dinâmica do Espírito Santo ou para um egocentrismo. E como esse processo só se esgota no fim de nossa existência terrena, ele nos é apresentado como uma realidade escatológica.

A santidade se constrói no interior da comunidade de batizados, que nos foi apresentada pela dinâmica do Espirito Santo em Pentecostes e onde mais esse mesmo Espírito desejar soprar, pois ele sopra onde quer, em qualquer lugar e em qualquer pessoa (cf. Jo 3,8). É esse Espírito que nos faz um e santos em Cristo. A comunidade santa é uma comunidade de amor, uma realidade escatológica que é visibilizada pelo testemunho da dinâmica comunitária e sacramental da igreja povo de Deus. A construção dessa santidade é reconstrução, ressignificação da vocação humana marcada pelo “pecado” (cf. Jo 17,11), que agora se encontra novamente reorientada para Deus.

A santidade se apresenta em tudo que foi criado em Cristo (cf. Cl 1,15-20), ainda que esta se apresente eclipsada pelo “pecado” presente no mundo. Quando digo pecado, estou me referindo a uma fragilidade humana que todos temos, pois somos vasos de barro e nossa liberdade é uma liberdade limitada pelo contexto em que estamos inseridos. Então, para buscar a santidade o que devemos fazer é nos orientar pela lógica do amor de Cristo e não pela lógica das sociedades. Como possuímos uma fragilidade inerente a nossa condição de criatura, nem sempre o conseguimos, por isso em Cristo somos pecadores remidos (cf. Rm 3,23-24). Mas como o projeto de salvação de Jesus Cristo também é universal, logo, ofertado para todos e todas, sem nenhuma exceção, todos somos santos e pecadores: justos e injustos, bons e maus, crentes e não crentes (cf. Mt 5,45).

No horizonte escatológico estará sempre a esperança de que renovadas pelo Espírito Santo, todas as coisas se façam novas de novo e toda a humanidade se apresente novamente em conformidade com Cristo-fôrma (em cristoformidade, cf. Rm 5,1-9).

Mas e a perfeição? Se sou perfeito não preciso de Deus para me salvar. A minha salvação já está garantida através das minhas obras, das minhas orações, dos sacramentos que recebi, das inúmeras missas que participei. O problema é que nesse caso, a graça da graça de Deus passou longe de mim, pois não precisei dela para garantir a minha salvação. Eu cumpri a lei, as normas religiosas e por isso já estou salvo, sentado a “esquerda” de Deus Pai. A parábola do Fariseu em Lc 18,9-14 nos revela com clareza isso, aquele que sabe que é pecador (o publicano ou cobrador de impostos) e que pelas próprias pernas sabe que não chegará a salvação, conta com a graça de Deus. O outro (o fariseu) não precisa da graça de Deus, pois já sabe e já fez tudo que seria necessário para a sua salvação, não precisa de Deus.

A perfeição só pode ser entendida como santificação humana e ela é escatológica. Só será plena na outra vida, mas deve guiar na atualidade da minha história, os meus gestos e ações, a minha atitude mais fundamental. Essa orientação fundamental também já é resultado da ação da graça de Deus em mim. A minha perfeição é imagem, ou melhor, imagem da imagem da perfeição do humano que é Jesus Cristo. Assim sendo, nossa perfeição deve ser compreendida como busca pela santidade (cf. Lv 19,2; Mt 5,48), por irmos nos conformando a Cristo.

Ser perfeito é ser feliz vivendo na alteridade, voltado para o outro, descentrado de si mesmo. E isso só é possível naquele que vive para e na misericórdia e não julga o seu próximo (cf. Lc 6,36-38). Vivendo na misericórdia para com o próximo e para consigo mesmo estamos direcionando nossos gestos e ações para busca da nossa santificação e da nossa felicidade. Estamos nos orientando para a humanização e para o reino de Amor, o reino de Deus, ainda que eu intitule esse reino de maneira diferente.

* Alexandre M. Rangel é Teólogo, Analista de Sistemas, especialista em Redes e estudante do domínio adicional Tecnologias e Mídias Digitais da PUC-Rio.

Como configurar o Wi-Fi da PUC-Rio no Android 2.1?

Pessoal, depois de algumas dificuldades para configurar o Wi-Fi da PUC-Rio no Android 2.1 do meu Sony Ericsson Xperia X10 resolvi postar este roteiro para ajudar os outros alunos nesta tarefa.

1. Primeiro você deve criar e baixar o certificado de autenticidade da PUC-Rio no seu computador ou no celular. Para isso vá em wifi.rdc.puc-rio.br, acesse a sua conta e gere ou baixe o certificado.

2. Copie o certificado (A999999-9.p12) para a pasta raiz do cartão do telefone (sdcard).

3. Agora vá em [Configurações] e depois em [Local e segurança].

4. Role para baixo até encontrar as informações de [Armazenamento de credenciais] e selecione a opção [Instalar do cartão SD]. Depois selecione o certificado que você copiou para o raiz do cartão SD e digite a senha de geração do certificado.

5. Retorne para a tela inicial de [Configurações], selecione a opção [Redes sem fio e outras] e depois [Configurações de Wi-Fi].

6. Selecione [Adicionar rede Wi-Fi] ou [Wi-Fi PUC] se esta conexão estiver dentro do alcance.

7. Entre com as informações solicitadas, lembrando que: SSID é [Wi-Fi PUC]; segurança é [802.1x Enterprise]; método PAP é [TLS]; e a identidade e senha são a sua matrícula [A999999-9]. Por fim, selecione [Conectar].

Boa sorte!

* Alexandre M. Rangel é Analista de Sistemas, Teólogo, especialista em Redes e estudante do domínio adicional Tecnologias e Mídias Digitais da PUC-Rio.

A Liturgia: celebração da fé ou norma em forma de rito?

Quando vamos refletir sobre algo que já está tão fortemente enrijecido e que, por isso, já se transformou num hábito pelo hábito, gosto sempre de buscar orientação numa palavra paulina que se encontra no Segundo Testamento: ‘É para liberdade que Cristo nos libertou’ (cf. Gl 5,1). Ou seja, foi para liberdade que Cristo nos libertou e não para voltarmos a viver sob o julgo da lei, da lei pela lei, como estavam fazendo alguns recém-convertidos, que não conseguiam deixar de se circuncidar. A Lei (torah) é e deve ser importante não só para judeus, como para cristãos também, mas nunca deve estar acima da felicidade da pessoa e da vida humana. ‘Atentar contra a felicidade de viver (e todas as consequências que isso implica) é a mais grave agressão que se pode cometer contra o ser humano’[1].

Paulo alerta que aquele que segue a norma, o rito pelo rito ou qualquer outra regra uniforme em busca da salvação, se basta a si mesmo para ser salvo e, por isso, está fora da graça (cf. Gl 5,4). E se não acolhe a gratuidade da graça, que é e deve ser a única possibilidade real de salvação[2] (Rm 3,21-31), também pode estar fora desta.

Toda a pregação de Jesus foi voltada para se fazer presente o reino de Deus e tudo que era contrário a mensagem desse reino era criticado ou relativizado por Jesus. Por isso, ele criticou duramente as normas e regras religiosas de seu tempo, bem como alguns setores da sua religião. Se as normas religiosas estavam sendo utilizadas para desumanizar as pessoas, elas deveriam ser relidas ou abolidas, pois não há espaço para elas num reino de amor, num reino onde o que importa é a felicidade do outro.

‘Jesus foi um transgressor da Lei religiosa (…). Ele deixou de observar a Lei exclusivamente quando estavam em jogo a saúde, a integridade da vida, a dignidade e a felicidade das pessoas’[3]. Por causa dessa ‘transgressão’ com relação à nomos, ele foi acusado de beberrão e comilão (cf. Mt 11,19); e de blasfemador, pois curava no sábado (cf. Lc 14,4) e comia com pecadores.

Jesus sorrindo, pe. Ignácio, Montes Claros/MG.

A liturgia dos três primeiros séculos era a representação cultual e festiva da fé que foi vivida no dia a dia da comunidade (ecclesia ou Igreja). Assim como, as músicas litúrgicas/festivas que utilizamos hoje deveriam ser capazes de conectar a Palavra com a fé que foi experimentada pela comunidade. As primeiras comunidades cristãs certamente não tinham a mão cantos gregorianos, nem mesmo ‘louvemos’ ou ‘cantai ao senhor’. Suas músicas eram aquelas que falavam justamente da experiência de fé vivida (Salmos). Mesmo assim, não é difícil encontrar Salmos que retratam experiências comunitárias ou momentos de fé bem distintos, por vezes antagônicos, como é o caso dos Salmos 22 e 23.

Ainda hoje, infelizmente não na Igreja Ocidental onde a liturgia foi romanizada e uniformizada (movimento consolidado com a cristandade), é possível observar essa rica experiência de fé nas 22 (vinte e duas) Igreja Católicas do Oriente, cada qual com seu rito próprio. A celebração de cada uma dessas comunidades fala de uma realidade de fé distinta e verdadeira, logo, não poderiam jamais ter um rito uniformizado. E a Igreja Ocidental, ao normatizar um rito único para toda Igreja particular, corre o sério risco de deixar de fora um importante participante, o pneuma, o Espírito Santo. Pois ele não se deixa formatar nem aprisionar, ele sopra onde quer (cf. Jo 3,8).

O que a Igreja e Cristo desejam e anseiam – e aqui não pode haver conflito – é a unidade e não a uniformidade (cf. Ef 4,13-16). Nesse caso, ser ortodoxo é permitir a multiplicidade e a diversidade litúrgica próprias de um Espírito que não se deixa aprisionar nem formatar e que, por isso age de maneira diferente em cada pessoa, em cada Igreja particular. O Espírito Santo é liberdade que dialoga com outras liberdades, não está aprisionado num rito nem em outro, mas age em todos ao mesmo tempo.

É por isso que a Sacrosanctum Concilium, constituição dogmática do Concílio Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia, afirma em relação às músicas litúrgicas que: ‘Em certas regiões, sobretudo nas Missões, há povos com tradição musical própria, a qual tem excepcional importância na sua vida religiosa e social. Estime-se como se deve e dê-se-lhe o lugar que lhe compete, tanto na educação do sentido religioso desses povos como na adaptação do culto à sua índole, segundo os art. 39 e 40. Por isso, procure-se cuidadosamente que, na sua formação musical, os missionários fiquem aptos, na medida do possível, a promover a música tradicional desses povos nas escolas e nas ações sagradas’ (SC 119). Ou seja, não só é possível fazer ‘adaptações’, mas é nossa obrigação fazê-las. Assim não corremos o risco de banir o Espírito Santo das missas nem de afastar a celebração da prática da fé diária, transformando-a num rito pelo rito, numa nomos vazia de espiritualidade e rica em dogmatismos.

Por vezes nos acomodamos tão facilmente sob o julgo da norma, que nem percebemos algumas heresias que a fé contemporânea pode sem grandes esforços teológicos identificar. Como por exemplo: a liturgia mais importante da Igreja (sábado de páscoa) e muitas músicas ‘litúrgicas’ dizem com certa frequência que um Deus que é amor e misericórdia envia seu Filho para morrer na cruz. Logo, um pouco de censo crítico também me parece fazer parte do leque de ações do Espírito Santo. E isto parece ter sido observado sabiamente pelo Catecismo da Igreja Católica, mais precisamente no número 1831, quando diz que o dom da ciência e o dom da inteligência, também são dons do Espírito.

Falamos de liturgia quase como se esse fosse um conceito matemático: claro e não contraditório, mas a palavra liturgia, na Bíblia, tem significados diferentes. O termo leitourgía está diretamente vinculado, na sua origem: a) ao verbo leitourgeîn; b) ao substantivo de coisa leitourgía; c) de pessoa leitourgós. Estas três as formas do termo liturgia aparecem num total de 15 (quinze) vezes no Segundo Testamento e possuem quatro sentidos: a) profano – uso do termo no mundo do trabalho, dos negócios, ou seja, no mundo social (cf. Rm 13,6; Fl 2,25; 2Cor 1,12); b) ritual / sacrificial – próprio do Primeiro Testamento, onde Jesus Cristo é o leitourgós (Hb 8,2; Lc 1,23; Hb 9,21; Hb 10,11.21); c) cultual / espiritual – a vida do cristão é um culto a Deus (cf. Rm 15-16; Rm 12,1); d) ato litúrgico / rito cristão / celebração – termo liturgizando, que aparece somente uma vez, mas é o que damos mais importância.

Assim sendo, fica muito difícil dizer com tanta precisão o que é e o que não é litúrgico. Acredito que isso deva ficar reservado à ação do Espírito Santo no coração de cada comunidade. Talvez seja possível dizer que o termo liturgia signifique algo como: em favor do povo e/ou pelo povo.

Com a encarnação do Verbo divino tudo foi divinizado, não existe mais separação entre profano e sagrado, tudo é consagrado em Cristo, pois ‘ele é o primogênito de TODA a criação’ (cf. Cl 1,15). Por isso arrisco dizer que não pode existir algo que foi criado que não seja sagrado. O problema está não nesse ‘algo’, mas no uso que eu faço desse algo. E com a liturgia isso não deve ser muito diferente.

Outro dado importante, é que foi somente no século XVIII que o termo liturgia começa a ser utilizado pela Igreja. E somente no século XX, na encíclica do Papa Pio XII (Metiator Dei), é que o termo é utilizado num documento oficial da Igreja. Ou seja, a ‘liturgia’ das primeiras comunidades cristãs era na verdade a celebração da fé vivida no dia a dia, e por isso, recheada de músicas populares e de muita alegria pela ação de Deus em suas vidas. Não era o que entendemos hoje como liturgia.

Mesmo a Instrução Geral para o Missão Romano (IGMR) só nos fala de missa rezada e missa cantada, nem se quer detalha quais músicas são ‘litúrgicas’ ou não. Os cantos que a IGMR (n. 24) aborda são os Salmos, as falas de quem preside e as respostas da assembleia.

E, por fim, devemos nos lembrar de que Jesus não sabia liturgia cristã, pois era judeu praticante e leigo. Ele não sabia teologia, pois não estudou a torah com nenhum rabino. Ele era alguém livre, totalmente voltado para o Pai, totalmente envolvido pelo Espírito Santo.

A liturgia e mesmo a teologia são frutos da ação de Deus em simbiose com uma ação humana contextualizada, localizada numa época e cultura específicas. Por isso não são verdades imutáveis, mas elementos sujeitos à ação do Espírito Santo.

[1] Castillo, José Maria. Deus e Nossa Felicidade, São Paulo: Loyola, 2006, p. 12.

[2] Em Paulo, salvação é a mesma coisa que justificação. Justiça de Deus e não dos homens nem das mulheres, pois o que é justiça para Deus, muitas vezes é injustiça na lógica das sociedades (cf. Mt 20,1-16).

[3] Castillo. Deus e Nossa Felicidade, p. 55.

* Alexandre M. Rangel é Teólogo, Analista de Sistemas, especialista em Redes e estudante do domínio adicional Tecnologias e Mídias Digitais da PUC-Rio.

Se armar para uma guerra contra o plágio virtual ou mudar de estratégia?

A matéria “Na era da internet, professores se armam contra plágio feito por alunos”[1], do jornal O Globo, publicada em 12/03/2011 as 20:27h por Marcelle Ribeiro, mostra uma das muitas faces do uso da internet no processo de aprendizagem e de avaliação dos alunos.

Penso que também deveríamos considerar as outras faces desse mesmo caso. Não pelo negativo, mas pelo positivo. “Colar” sempre foi uma atividade presente no processo de aprendizagem. Como estudante, eu também já fui um praticante dessa atividade e devo dizer que nem sempre ela foi vazia. Em alguns casos essa prática também me proporcionou novos saberes. O que acontece hoje é que podemos “colar” sem precisar “colar”. Posso pegar um trabalho pronto, imprimir, encapar e entregar. E isso está acontecendo até mesmo com teses de doutorado, onde capítulos inteiros são plagiados.

O problema não está somente na facilidade que as novas tecnologias da informação e da comunicação (TICs) trouxeram, mas na quantidade, diversidade e transformação contínua dos saberes que hoje vivemos. Por exemplo, saberíamos dizer quantas teses de doutorado um departamento da PUC-Rio produz por ano? Quantas teses toda a PUC-Rio produz nas suas diversas áreas? Quantos diplomas de graduação são emitidos por ano pela PUC-Rio? Com certeza muitos.

Não somos mais capazes de assimilar todas as novidades acadêmicas que são produzidas por essas pessoas, nem mesmo pelo departamento da nossa área de atuação. Logo, não é mais possível pensar a formação e os sistemas de avaliação de maneira estática e linear em tempos de dinâmica evolução dos saberes e de quarta dimensão, como atesta a mecânica quântica[2].

Assim sendo, penso que não devemos criar novos mecanismos para impedir, coibir ou punir aquelas pessoas que realizam plágio de trabalhos. Mas sim, mudar a maneira com que nos relacionamos com os novos processos aprendizagem e com os novos saberes. O professor não é mais alguém que despeja informação e conhecimento sobre seus alunos, mas é alguém que os motiva a buscar a informação, que os orienta na construção do conhecimento e que os ajuda na organização dos novos saberes. Ou seja, ele é um “animador”, alguém que desperta nos alunos o desejo de aprender e de pensar.

A escola e a universidade não são mais os únicos detentores dos saberes, que agora podem ser rapidamente acessados por qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo. Por isso, o mais importante hoje não é o que se “sabe”, mas como “saber” e como aplicar isso às reais necessidades da minha vida cotidiana, para que eu seja capaz de contribuir para construção de novas “bases de saberes”.

Por isso, hoje não podemos mais avaliar o conhecimento de um aluno da mesma maneira que fazíamos há 40 anos. Então, a brincadeira não é se “armar contra o plágio feito pelos alunos”, mas pensar novas formas de avaliação, mais condizentes com a nova dinâmica de aprendizagem. Pois nessa nova dinâmica, interativa, criativa e colaborativa, a inteligência não é mais propriedade privada de um único suporte (indivíduo, livro), mas uma “inteligência coletiva”[3] e pública, uma inteligência da navegação.

[1] http://oglobo.globo.com/educacao/mat/2011/03/12/na-era-da-internet-professores-se-armam-contra-plagio-feito-por-alunos-924000495.asp – visitada em 14/03/2011

[2] http://www.nature.com/nature/journal/v443/n7111/full/nature05136.html / http://www.gnosisonline.org/ciencia-gnostica/cientistas-a-ponto-de-dominar-a-quarta-dimensao/ – visitadas em 14/03/2011

[3] LÉVY, Pierre. Inteligência Coletiva, Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 2003.

* Alexandre M. Rangel é estudante de Teologia e do domínio adicional Tecnologias e Mídias Digitais da PUC-Rio, graduado em Processamento de Dados e especialista em Redes.